sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Feminina sim e .

Ouvi hoje uma coisa que me incomodou bastante. Às vezes, queria ouvir menos. Mas ouvi e não foi bom. “A medalha de ouro merecia ter ido para a Marta, mas estão lamentando que foi para o Neymar”. (Tom irônico). Primeiro: Quem lamentou isso, cara pálida? Segundo: a medalha não foi pro Neymar – como bem lembrado por uma amiga minha – e sim para um time.
Homens assim se alegram com o “fracasso” das mulheres. Mas será que foi fracasso? Ser eleita várias vezes melhor do mundo no que se faz, mesmo sem ter os patrocinadores, os milhões, as regalias que seus colegas de profissão homens têm, mas nem por isso desistir? Lutar até o fim, seja no esporte, seja na vida. Lamenta-se fracasso, não força. Lamenta-se bunda molência, não garra. Lamenta-se machismo, não orgulho de jogar pelo seu país e pelo que se acredita.
Mulheres que se destacam, que lideram, que ganham salários justos são minoria, mas temos que lutar pela igualdade de gêneros. No futebol ou em qualquer outra profissão. Essa de que “ah, o Brasil é um país machista mesmo" – ou qualquer outro país – é uma falácia que os homens e mulheres usam para permanecerem inertes frente a tanta injustiça profissional e salarial. A tanta ironia. A tanta cara de pau. Inércia é cômoda, dispende nada de energia e mudanças. Mudanças acontecem com o caos, palavra assustadora, mas utilíssima. Se não fosse ele, não estaríamos aqui, “no Big Bang”, “no life”.
Muitas coisas me incomodam profundamente. Ser mulher e jovem e competente é quase um desacato à sociedade falida provinciana que vivemos, com senhorzinhos de engenho com canecas (e barrigas) de chopp, em seus carros luxuosos, com uma mulher pendurada a tiracolo. Afinal, mulher competente tem que ser idosa, vaidade zero, mal arrumada. Tem que ser sapatão. Tem que ser “homem”. E se além de jovem, competente, inteligente, ela for bonita? Nossa. Ou está de caso com alguém ou é muito fútil porque combina o sapato com o esmalte. O mais impressionante disso tudo é que comentários assim vêm das próprias mulheres. De pessoas que deveriam ser parceiras.
Igualdade de gêneros é uma realidade necessária, que talvez demore a vermos – ou talvez nem consigamos essa felicidade enquanto estivermos neste plano – mas temos que fazer nossa parte. Se as ativistas do WLM não queimassem sutiãs, talvez não votássemos, não trabalhássemos, não crescêssemos na carreira, não tivéssemos o direito de sermos belas, seja do lar ou dos negócios. Recatada eu ou não. Isso eu nem comento. É deselegante demais comentar vida íntima. 
Ocupam-nos até o limite da capacidade de administrar uma vida com alguma sanidade. Somos vítimas de um machismo descarado e ao mesmo tempo, somos inertes ou ocupadas demais para rebater tal comportamento. Uma bola de neve perfeita para que o machismo perdure. E claro, a culpa é nossa. Só e sempre nossa.
Quando pequena, enquanto todas minhas amigas brincavam de boneca e sonhavam em casar e ter filhos, eu me imaginava discursando para uma plateia imensa, num idioma estrangeiro, de tailleur, chiquérrima - a cara do sucesso. Na OMS. Rá. Estou chegando lá.
Hoje, a cobrança é outra. Temos que ser mães, donas de casa, esposa, fazer sexo dia sim dia não, levar dinheiro pra casa e sermos fortes e profissionais, aguentar assédio moral e sexual porque “faz parte” e nada de cólica, TPM, dor de cabeça ou mandar tudo à merda e comprar uma prancha e se mudar de vez pro Havaí. Cobrança para ser mãe... Afff, me irrita profundamente as pessoas não respeitarem o direito de escolher você NÃO querer ou sonhar com isso. Sempre quis adotar, mas não decidi se quero parir. Sou menos mulher por causa disso? Algumas pessoas acham que sim.
O fato é, cada vez que me deparo com essa realidade, sinto uma inquietude e uma vontade de fazer mais e melhor – mas não para provar para os homens que sou capaz e sim para provar para mim mesma que ninguém – homem ou mulher - vai me subjugar por causa da cor do meu batom, do tamanho do meu salto ou do tom de voz mais agudo. Minha capacidade não anula minha vaidade. Não precisamos de piedade e sim de liberdade. A luta é diária. Não podemos desistir, nem ficarmos inertes. Somos vítimas, mas não precisamos ser passivas e nos conformar. Mais do que honrar “as calças”, honre seu batom. E se precisarem de mais sutiãs para serem queimados, o meu certamente estará no meio.


Nenhum comentário:

Postar um comentário