terça-feira, 24 de janeiro de 2017

As pessoas e as criaturas


É impressionante como ainda tenho a capacidade de me surpreender com certas coisas. Os valores estão invertidos, filhos se metendo na educação que recebem dos pais, amor livre (?!) no sentido de ninguém ser de ninguém, dinheiro vindo em primeiro lugar - no lugar que sempre foi da família; amores que não têm força para enfrentarem os desafios da vida a dois (amores?!); falsidades cultivadas, em vez de amizades; vaidades em vez de generosidade; arrogância em vez de gentileza; ameaça em vez de respeito.
Nasci exatamente nessa transição de valores e acho que fui a ultima geração que conheceu esses dois mundos - talvez por isso ainda seja capaz de me chocar com tudo isso.
Quem só conheceu a segunda versão da vida, ou melhor, do mundo acha que sempre foi assim. Mas te digo: não foi não.
Não tínhamos tecnologia, não tínhamos 1.376.498 formas de comunicação, uma ligação custava uma fortuna e ninguém mandava e-mail porque não havia internet. Talvez por isso comunicar-se era um ato valorizado. Entender o outro era algo precioso. Hoje parece ser perda de tempo. Ter bons valores era sinônimo de felicidade. Cada minuto era vivido realmente e não virtualmente.
Claro que a culpa dessa inversão de valores não é da tecnologia e sim da nossa falta de senso ao utilizá-la. O capitalismo acirrou-se. A vida tornou-se frívola, com vaidades exarcebadas - principalmente nas redes sociais. "Olha, minha vida é melhor que a sua! Meu corpo é mais sarado que o seu! Eu sou VIP nas baladas". Blá-blá-blá. Tédio. Foto de diploma dos cursos que fez ninguém posta.
Tenho muita saudade da Primeira versão da vida. Muita. Mas vivemos o hoje, essa realidade-virtualidade insana. O tempo não volta e nos dá a chance de fazer diferente. Fizemos merda com a nossa "evolução". Fato. Mas não podemos perder a sanidade e principalmente, os valores. Eles não morreram, estão adormecidos, esperando esse furacão passar para ressurgirem repaginados, e ensinarem algo a essa juventude, que de tão perdida e carente, só tem a internet. Ou pior, dinheiro (que na maioria das vezes, nem seu é).
Só posso, em meio a isso tudo, cultivar esses valores em mim e tentar repassa-los de alguma forma. Talvez nossa geração tenha uma das missões mais importantes do mundo: não deixar que a vida real e os valores que foram construídos por milênios (passando por Cristo, Buda, filósofos, desde Platão, Santo Agostinho, Rousseau, outros tantos mais e claro, meu  amado Rubem Alves) caiam no esquecimento.
Por fim, como diria o grande humorista Renato Aragão, com sua personagem genial, Didi Mocó: "Assim como são as pessoas, são as criaturas".
Não seja mais uma criatura no mundo. Busque fazer a diferença.

Daniele Van-Lume Simões   24/01/17


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