quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Crianças e rótulos


Dia desses vi uma reportagem na internet que me chocou um pouco. Aliás, choque nunca é pouco. Fiquei chocada mesmo. Alguns pais criam seus filhos como sem gênero. Isso mesmo, sem gênero. Os filhos não sabem se é menino ou menina. Eles vestem seus filhos com roupas neutras, cortam os cabelos de forma neutra, colocam nomes neutros, sequer informam aos seus filhos sobre seu gênero, nem seus familiares, tudo isso alegando que a criança tem que escolher o que ela quer ser. Oi? Como ela poderá escolher o que quer ser se ela sequer conhece as opções? Pra mim, surreal, e olhe que nem sou tão careta assim.
Uma criança pequena, que não sabe seu gênero, certamente não desenvolverá sua identidade com segurança. E com tantas definições – e alguns modismos - que vivem surgindo por aí a respeito de gêneros, e as pessoas estão confundindo gênero com sexualidade. Uma coisa nada tem a ver com a outra. Gênero é como você se vê, se entende e se sente bem e realizado. Sexualidade é o que você deseja para se relacionar – e isso nada tem a ver se você usa calças ou vestido.



Fui criada à moda antiga, e quem nasceu na década de 80, sabe que a criação só era considerada respeitosa na maioria das vezes, se fosse preconceituosa. Embora eu seja do gênero feminino, me enxergue como mulher e seja heterossexual (ou seja, dentro dos padrões de “normalidade” dos anos que fui criada), não tenho absolutamente nada contra quem não segue esse padrão, independente da década que tenha nascido. Pelo contrário, quero mais que as pessoas sejam felizes, como queiram ser – homem ou mulher, gay, hetero, trans, bi, assexuado, andrógino – que seja, mas sejam felizes, pois o mundo já está cheio de rancor e gente mal resolvida. Quero mais é que as pessoas sejam felizes com o gênero e a orientação sexual que escolheram. Mas capacidade de escolha exige responsabilidade e maturidade, para que realmente a pessoa se sinta feliz com o que se é.
Mas para mim, criar uma criança neutra, é negar a essência dela, é deixa-la confusa a respeito de si mesma, sobre o que ela é e isso pode causar danos graves no futuro, como por exemplo, insegurança de se assumir caso resolva mudar, pois não saberá sequer em que mudar. Poderá causar, inclusive, muito mais dúvidas do que certezas – inclusive sexuais. E toda dúvida gera sofrimento, até que se tenha a resposta.



Nunca faria isso com um filho ou filha meus. Jamais tiraria o direito de eles reconhecerem a própria identidade, mesmo que biológica, pois é a partir dela, que valores, desejos e ideais são formados, avaliados, mudados, transgredidos. Menino é menino e menina é menina – e devem ser identificados como tal - até que eles tenham maturidade suficiente de querer mudar de gênero ou permanecer nele – independente de orientação sexual.




Desejo sexual, a meu ver, não será definido com mais clareza em uma criação amorfa, neutra. Isso é contra a natureza, contra os instintos, contra a vida. Yin e Yang, positivo e negativo, óvulo e espermatozoide, fogo e água, terra e ar, céu e inferno, mais que contrários, são complementares, e importantes na mesma proporção – o que não impede que você transite entre um e outro, se for de sua vontade ou siga os padrões que você foi criado. Criar uma neutralidade “absoluta” enquanto uma criança está em formação é negá-la em sua própria existência. É reduzi-la a algo sem definição.
O mais contraditório disso tudo é que a mãe de uma dessas crianças usa cabelo comprido e batom vermelho, mesmo dizendo que procura viver sem rótulos e por isso não rotula o/a filho/filha. Mas ela mesma se rotula. E isso não é ruim, pelo contrário. Não sei qual o problema de rótulos. Até refrigerante tem rótulo.
Rótulo é apenas um nome vulgar de uma definição de si mesmo, sobre sua essência, e que é mostrado às pessoas de forma objetiva e às vezes superficial, mas é você. Entenda, o rótulo tem que ser dado por você mesmo. Algumas sabem ler os rótulos corretamente, outras não conseguem interpretá-lo e compreendê-lo – daí os preconceitos, mas ele está ali, definindo quem se é e no que se acredita, definindo seus ingredientes. 




No entanto, quando se trata de uma criança em formação, uma criança pequena, é necessário que esse rótulo seja dado pelos pais, para que ela tenha capacidade de desenvolver sua própria identidade, de se sentir segura em seu corpo e de escrever seus “ingredientes” ao longo de sua vida. E se o rótulo dado por eles não for o mais apropriado quando o indivíduo tiver consciência do que se é e do que quer ser, nada impede de muda-lo, de reescrevê-lo. Até mesmo de rasgá-lo e viver na neutralidade, mas somente se for de sua própria escolha.


Daniele Van-Lume Simões 20/10/2016



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